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quarta-feira, 11 de março de 2009

Sofia e o amor

A casa encontrava-se vazia desde então. Sofia, tão obscura quanto tudo o que estava vivendo, abriu a porta e encontrou o silêncio. Eis o que ela precisava: o silêncio. Nada mais.
Pôs sobre a mesa as compras que fez, jogou sua bolsa em um canto qualquer da sala. Deitou-se no sofá e pôde garantir que não sentira sensação tão confortável há pelo menos um ano. Isto a fez lembrar do que vivera há um ano atrás.
Realmente, há um ano atrás Sofia estava satisfeita. Simplesmente satisfeita. O que é fantástico, já que a insatisfação é o eterno sentimento humano.
Agora ela estava sem suas partes. Não mais se reconhecia em seu próprio corpo e sentia a alma repicada. Sofia estava vazia.
Pensou que talvez fosse aquele homem, cujos danos causados a seu psicológico e emocional superam a maior das crueldades. Concluiu por fim que fora mesmo aquele homem, e infelizmente, por concluir, percebera também que ele ainda a habitava. O que era bom: ela não estava vazia. O que era ruim: ela necessitava, definitivamente, tirá-lo de dentro de si.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Noite De Natal

Vinha-lhe uma dor fina, muito similar ao rancor - isto se não fosse o próprio -, que lhe despertava dúvida em relação à possibilidade de existir ainda alguma bondade neste mundo, nem que fosse mínima. Via-o - o mundo - como uma fruta que já passara de sua maturidade há algum tempo, como uma fruta podre. A podridão imperava.
Perguntava-se se valia a pena ser boa com um mundo que a tinha maltratado tantas vezes. Durante todo um ano, apanhara. Como se houvesse alguma força superior insistindo em pôr seu punho contra ela, fazendo-a sentir na pele as mais diversas dores, os mais diferenciados incômodos.
Questionava-se: algum dia isso havia de passar?
Deitada numa cama imensa, trancada num quarto escuro, ouvindo os ruídos de um ventilador velho e empurrando goela abaixo a cerveja já quente, ela desmoronava. Chorava, mas não sentia pena de si mesma. Apenas raiva. Raiva de tudo. Do mundo, do Deus, dos humanos.
Desabava sobre si mesma, e apesar de mundana, aquela raiva que sentia a alimentava.
Sentiu-se sem vida por uns instantes, mas era apenas sono. Adormeceu.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Olhos nos Olhos

De início ela não dava tanta importância àquele que causava suspiros em todos os tipos de mulheres. Via-o somente como mais um cumprindo seu dever em meio a tantos outros.
Apesar de simpatizar com seu jeito e notar seu modo diferente de ser, custou um bom tempo para que notasse sua beleza, que para tantas outras já era óbvia.
Seu encanto começou com um olhar. Um olhar, somente. Num momento em que os dois estavam próximos, seus olhos se encontraram. E ela derreteu. Por segundos apenas, mas derreteu. Algo de diferente acontecia, ela pensou, enquanto ele fixava o olhar e ao mesmo tempo o desviava.
Dias se passaram, e seu encanto crescia. Nunca tinha se apegado a um olhar daquele modo. Só sabia pensar nos momentos de encontro, e enquanto estava com ele não fazia outra coisa se não fixar seus olhos nos dele.
Ele, com o tempo, parecia notar todo o jogo. Não era bem um jogo, mas sim uma atmosfera estranha, afrodisíaca. Ele mostrava-se envolvido, chegava perto, olhava fixamente nos olhos dela, freqüentemente. Sorria, sorria lindo, sempre que os olhares se encontravam.
Certa vez, depois de tanto encontro entre os olhares, resolveram não desviá-los e deixá-los fixos. Eis que ocorreu uma atração mútua, repentina, e os dois se aproximaram. Primeiro, enquanto os olhos continuavam fixos uns nos outros, encontraram-se as mãos. Em seguida, os braços. No instante máximo, aquele que precede o esperado há tanto tempo, há a face a face. Os segundos de silêncio. Os pensamentos a mil. E, finalmente, o encontro dos lábios. Ela há tanto tempo sonhava com isso, algo que parecia tão inalcançável. Não conseguia acreditar, mas havia acontecido: seus corpos finalmente e, por fim, se encontravam.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Terceiro

Chegaram apressados, com a boca seca e as mãos trêmulas de ansiedade e medo. Deixaram o carro tão rápido quanto se deixa um campo de batalha, subiram com passos corridos a escada e, depois de pouco procurar, encontraram o número que lhes foi dado: 123. Agarraram-se como animais famintos, expremendo-se contra a porta e sentindo seus sexos colados um no outro. Enquanto perdia-se nas curvas da menina, ele abriu desastrosamente a porta, levando-a pela cintura até a parede mais próxima. Fechou a porta com um braço e, com o outro, envolveu-lhe com mão forte a cintura, descendo os lábios pelas curvas daquele pescoço macio, com cheiro de menina mulher, enquanto ela arrancava-lhe os botões da blusa. Empurrou-a ainda vestida na cama e, ao encaixar seu corpo sobre o dela, tirou-lhe pelas costas a blusa branca de tecido macio que encobria as tão preciosas curvas daquela cintura tão jovem. Desceu sua boca aos arrebitados e belos seios como um filho faminto, enquanto a expressão da mulher deixava claro as pontadas de prazer que sentia. Ela se virou. Deslizou seu corpo sobre o dele até chegar na altura do cinto que segurava sua calça. Com mãos delicadas e precisas, desabotoou-lhe o cinto e a calça, tirando-a com gestos igualmente lentos. Olhando em seus olhos, agora incalculavelmente mais provocativos, bebeu o leite que há tanto tempo desejava e, deixando-lhe fazer o mesmo, chegou ao momento de gozo que, havia muito tempo, esperava. Sentiu o sexo dele chegando mais perto do seu. Gelou por uma fração de segundo, mas acabou por ceder à temperatura ambiente de seus desejos e somente sentiu um estalo rápido, mas doloroso. Não lhe escorreu nenhum sangue, somente foi invadida por um vai-e-vem feroz acompanhando da respiração ofegante do homem que, naquele momento, era seu. A partir disso, os dois perderam-se em si mesmos: eram dois humanos completamente distintos que, graças a um sentimento que lhes era comum, acabaram por tornar-se um só.

Segundo

Pensava ele que ela pouco ou nada notava do seu apetite sexual tão voraz. Pensava, iludido, que ela não lhe interpretava os olhares e não sabia ou conseguia captar a sexualidade que ele excessivamente esbanjava. Apesar disso, pensava, também, que o olhar dela poderia significar algo, mas não sabia ao certo. A única coisa de que tinha certeza, entretanto, era de seu desejo: ele a queria tão selvagemente que era necessário controlar-se. Mas, mesmo que sem querer, ela o provocava: o seu olhar expressivo e inocente, a sua postura de menina mulher, suas curvas precisas e a sua pele morena deixavam-lhe a sexualidade à flor da pele. Ele, tão frio e arrogante em sua forma natural, acabava por assustar-se com o turbilhão de sentimentos causados por um ser que lhe era tão diferente, tornando-o suscetível ao seu lado impulsivo e a todas as provocações que lhe fossem atiradas.

Primeiro

Enquanto ela imaginava-se nas mais diversas aventuras, não lhe fugia à cabeça aquele mesmo homem que a vinha atormentando há tanto tempo. Desde a primeira vez que o viu, não conseguiu tirar da memória aquele olhar tão provocativo, que atacava-a como que com sete pedras, sem nem pedir-lhe licença. Invadia sua privacidade e seus desejos mais íntimos aquela voz tão bem modulada que chegava certas vezes ao ponto mais alto de sensualidade que se pode alcançar. O modo como fazia-se presente, sempre exalando sexualidade, a deixava fora de si. O homem parecia ser a luxúria encarnada; de modo algum parava de atormentá-la em seus devaneios. Ela cansava-se, expulsava-o de suas idéias, evitava vê-lo, mas nenhuma das tentativas era certeira: o conjunto da voz sensual e às vezes tão bela, do olhar que a devorava e da sexualidade quase viva a artomentava como se aquele homem se fizesse presente em todas as suas travessuras e em seus momentos mais íntimos.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Através do Espelho

Marília pensava na efemeridade das coisas, lembrava do cheiro dele que já havia se misturado com o seu, pegava quase que compulsivamente na lembrança que levava consigo, como se para ela aquilo fosse ele, como se matasse tudo o que ela vinha sentindo e, o mais importante, como se fosse um remédio pr'aquelas horas que não passavam, Lembrava daquela última vez como se fosse mesmo a última, mesmo sabendo que não era, e mais uma vez lhe vinha o efêmero à cabeça: o mundo é efêmero e a realidade é efêmera, Nós somos efêmeros,
Marília: era isto mesmo o que queria? Ou desejava o efêmero?

Decidiu olhar-se no espelho por uns instantes, tentando decifrar a si própria, Se questionava ao mesmo tempo em que desprendia os cabelos e penteava-os com aquela escova que, para ela, equivalia a todo um banho, olhava nos próprios olhos e achava-os incrivelmente parecidos com os dele,
Em meio a devaneios a angústia não lhe saía da cabeça, não sabia o que queria, Ou sabia?

Parou de escovar-se, Guardou na sua caixa branca todo aquele emaranhado confuso de efemeridades e cheiros - só não a sua lembrança cotidiana - , apagou as luzes, deitando sua cabeça no travesseiro sempre tão macio e descansando as pernas como se tudo aquilo fosse eterno, ligou o rádio para ouvir aquelas mesmas músicas de sempre que lhe faziam dormir como anjo, como se esperasse mesmo que aquele momento tão dela e tão dele fossem só deles, como se os dois fossem um só, Na verdade ela o queria ali naquele momento, mas só tinha o cotidiano, os cheiros confundidos e a memória já quase desconsertada de tanto se lembrar daquelas velhas e desgastadas cenas
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